12.29.2011

2ª SESSÃO : ADÍLIA LOPES (7)

Para ter acesso às fotografias da 2ª sessão das Leituras FLASH, acontecida no passado dia 28 de dezembro na Rua Santa Catarina e dedicada a Adília Lopes, clique aqui.

12.27.2011

2ª SESSÃO : ADÍLIA LOPES (6)



OS DESASTRES DA BONECA DE SOFIA

Era uma linda boneca de cera
loira de olhos azuis
enviada pelo pai de Paris
tinha um vestido de fustão
e sapatinhos de verniz
estava muito bem embrulhada
foi a criada quem desatou os cordéis
porém segundo Paulo a boneca não era forte
Sofia para lhe dar boas cores
pô-la ao sol
e a boneca cegou
como se lavam as crianças
deu-lhe banho com água sabão e uma esponja
e a boneca descorou
frisou-a com papelotes e um ferro quente
e a boneca ficou calva
de outra vez ensinou-a a fazer habilidades
pendurou-a por um cordão
e a boneca caiu
e a boneca ficou com um braço
mais curto do que o outro braço
um belo dia Sofia deu-lhe um escalda pés
e a boneca ficou sem pés
enfim Sofia fê-la trepar a uma árvore
ao cair a cabeça da boneca bateu numas pedras
e fez-se em mil pedaços
e a boneca velha sem cor
sem pés sem cabeça calva
que ninguém amava já
de que ninguém tinha saudades
feia como um bode
teve um alegre enterro
e uma sepultura com dois lilases
foi a enterrar coberta por um pano
de seda cor-de-rosa numa caixa de amêndoas
transportada num andor com argolas
para duas pessoas apenas
o que foi uma pena.


A DESOBEDIÊNCIA CASTIGADA

Não foi culpa minha
se caí na selha e se meu irmão
correu para dentro a chamar
o criado que a mana estava
a molhar os vestidos quando eu
estava mas era a afogar-me
não foi culpa minha
se desobedeci a minha mãe
por sem sua licença passar a ferro
o vestido azul da boneca e assim
fazer no pulso com o ferro em brasa
uma queimadura rubra e sépia
como uma pétala de rosa macerada
que escondi com um lenço que anda
a menina a esconder com o seu lenço
nada minha mãe nada é uma arranhadela
que o gato arranhou por o não querer largar eu
não foi culpa minha
se a criada esqueceu a porta das traseiras
aberta e eu tropecei no degrau
e caí no lajedo e parti a cabeça
para ainda hoje trazer na testa
uma cicatriz que disfarço
com uma madeixa de cabelo
não foi culpa minha
se porém sempre por desobediência
minha mãe me privou da sobremesa


CAPRICHOS

Conheci uma menina
muito caprichosa a comer
tinha dias que só comia chocolate
ou então ovos mexidos
diziam dela está a chocolate
como se diz de Picasso
que teve uma fase azul
de uma vez gritou
que tinha fome de queijadas de Sintra
e de mais nada
partiu brinquedos
até que mandaram uma criada á periquita
comprar-lhe queijadas
amigos da família notavam
que uma criança tem de se habituar
a comer de tudo
não porque se seja a rainha Isabel
que por uma questão de cortesia diplomática
teve de comer ratos no Punjab
nem porque esteja próximo de um período de racionamento
mas porque é a comer do que não se gosta
que se aprende a saber do que se gosta
as crianças mimadas
acabam por escrever gostava de gostar de gostar
e contraem doenças infecciosas
com muita facilidade
esta apanhou tosse convulsa
e enquanto teve tosse convulsa
só comeu pombinhas de pão
um dia a padeira enganou-se
em vez de pombinhas trouxe vianinhas
e a mãe da menina
ao vê-la chorar como uma possessa
despediu a padeira
a menina durante a convalescença
refinou
tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste seu ódio
pois em casa da tia Balbina
só aceitava comer pão com manteiga
dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons
está em não dizer man nem ei
murmuravam na sala de visitas da tia Balbina
mas como quem fala de um prodígio
e não como quem diz coitadinha
depois de sete criadas terem sido despedidas
por não saberem cozinhar a preceito
pudim de beiço de vaca
apresentou-se uma que era extraordinária
a menina passou a tratá-la por Predilecta
a Predilecta compreendeu tão bem a menina
que no dia em que preparou com mais esmero
o prato preferido da menina
pudim de pardais assados em água
deitou no pudim um punhado quase mortal de arsénico.


A ELISABETH FOI-SE EMBORA

(com algumas coisas de Anne Sexton)


Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida


NO MORE TEARS

Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar


OS CORDÉIS

Passava os dias a dar nós em cordéis
para desfazer os nós a seguir
não tinha ninguém para a aplaudir
nem esperava Ulisses
mas continuava
aquilo não era um passatempo
os cordéis sem nós
serviam para desfazer os nós
enquanto os embrulhos trouxeram cordéis
as sobrinhas não estranharam
mas quando os cordéis se tornaram raros
lembraram-se de que ela na juventude
fora capaz de seguir cinco conversas diferentes
ao mesmo tempo
como Napoleão era capaz de ditar
dez cartas diferentes
ao mesmo tempo
só que a guerra e os bailes no consulado
tinham acabado
antes que ela se tornasse
uma grande espia
as sobrinhas convidavam forasteiros
e faziam cinco conversas diferentes
ao mesmo tempo
para a distraírem dos cordéis
mas os cordéis absorviam-na
nenhuma conversa lhe importava
as sobrinhas deitaram os cordéis fora
irritadas com aquela obstinação
ela passou a arrancar cabelos
e desfazer os nós dos cabelos
exige mais perícia do que desfazer
os nós dos cordéis
se fosse uma questão de vida ou de morte
seria como despoletar granadas
assim ela só podia perguntar
o que é mais fino do que um cabelo
para eu lhe poder dar nós?

LOPES, Adília.
in O Decote da Dama de Espadas (Romances), in Obra, Mariposa Azul, Lisboa, 2000.


12.25.2011

2ª SESSÃO : ADÍLIA LOPES (5)

Às 15h30 do dia 28 de dezembro, próxima quarta-feira, juntamo-nos perto entrada do Centro comercial Via Catarina, na Rua Santa Catarina, para ler Adília Lopes no frenesim das compras de fim de ano. Começamos com "A bela acordada".

2ª SESSÃO : ADÍLIA LOPES (4)



MENSTRUAÇÃO


Penso fazer uma antologia de textos sobre a menstruação. Nesse livro a fazer-se vai estar a página d' O Conquistador de Almeida Faria, sobre Clara, uma rapariga que pendurava os pensos higiénicos usados numa cerejeira carregada de cerejas. Parece um quadro de Frida Kahlo. Parece uma árvore de Natal. É tão bonito! Pessoa queixa-se de que pouca gente vê a beleza do binómio de Newton. Eu queixo-me de que pouca gente, tanto homens como mulheres, vê a beleza da menstruação. A menstruação é tão bonita como o binómio de Newton, o que há é pouca gente para dar por isso. Para mim é sempre uma alegria muito grande a chegada da menstruação. A menarca aconteceu-me a 19 de agosto de 1972. Lembro-me perfeitamente de ter entornado um jarro de água quente sem querer e ter caído da bicicleta, quase atropelando um homem que me disse isso mesmo "Parece que me queres atropelar!". Depois fui à casa de banho urinar e vi que tinha sangue nas cuecas. Felicíssima dei a notícia à casa. A minha avó Zé e a minha tia Paulina deram-me os parabéns. Disseram "Agora já é uma senhora". A Maria Arminda, a criada, disse "Parabéns por quê? É uma porcaria". A Maria Arminda chamava à menstruação "o pingo". E à vagina "a grila". Penso que é uma pena muito grande haver mulheres (e homens) que têm nojo da menstruação. A publicidade fala d'"os dias difíceis"! São dias maravilhosos. Eu agradeço sempre a Deus as minhas regras de cada vez que elas voltam. Como geralmente no período pré-menstrual me sinto muito deprimida, a chegada da menstruação é o fim da depressão, a libertação. E depois, se acho que vou ter relações, o primeiro dia de regras é o dia de começar a tomar a Diane 35, a minha pílula. O que também é uma coisa boa. A minha tia Vitória, mulher do historiador Oliveira Martins, nunca foi menstruada. Era uma história de mulheres que se contava em minha casa entre as mulheres. Eu, antes de me aparecer a menarca, tinha medo de ser como a tia Vitória. Cada vida é diferente e maravilhosa. E não quero que as mulheres que nunca são menstruadas se achem infelizes. Outra página lindíssima é o poema de Herberto Helder "A menstruação, quando na cidade passava" (in A máquina lírica). Acaba assim: "e pela noite, em silêncio,/a menstruação escorria pela neve." Neste poema aparecem cravos e figos. Uma mulher que nunca experimentou a menstruação ao ler este poema não morre como as Ximenas do Jorge de Sena que "para imaginar faltou-lhes tudo". É horrível pensar que tudo se passou e ainda se passa, às escondidas, com medos, com vergonhas, em sacristias nada sacras. Eu, embora gostasse muito de estar menstruada, tinha medo que os outros soubessem que eu estava menstruada. A minha mãe ainda era do tempo dos paninhos. A Maria Arminda dizia que o lavadeiro quando lavava os panos gritava "Aquelas porcas! Aquelas porcas!" É pena que o lavadeiro não tenha lido outra página da minha antologia pessoal, a de Valéry, de "Diário de Emma, sobrinha do Sr. Teste" (in La jeune parque). Aí se diz que tudo o que sai do corpo é puro, produto elaborado de uma indústria bioquímica muito complexa. Ouvi a minha mãe dizer ao meu pai que eu tinha mudado de idade. O meu pai, como quase todos os homens da sua geração, que tanto têm de republicanos como de fascistas, despreza as mulheres. Não me disse nada. Gostava de ter sido filha do escritor António Lobo Antunes que numa crónica neste jornal (outra página antológica) contava que quando a filha tinha mudado de idade lhe tinha dado um ramo de flores. Parece que as páginas de Anne Frank sobre os tampões ou pensos higiénicos têm sido censuradas. E devia ter sido complicado estar menstruada à sombra dos nazis. Mas nazis são também os que censuraram os tampões de Anne Frank. Isso é completamente ridículo, mas eu achava que se o gonçalvismo triunfasse, deixavam de se vender tampões em Portugal. Armazenei tampões durante o Verão quente de 75. Penso que devo registar isto para a História de Portugal. Com o uso de tampões aprendi mais sobre a minha anatomia até porque aprendi a masturbar-me com prazer.

Adília Lopes, in Público

2ª SESSÃO : ADÍLIA LOPES (3)



Marianna faz vinte e oito anos
Marianna tem virtude
de imaginar
que abre cartas
abre
nervosamente
a caixa de bombons
que uma irmã lhe oferece
pelos anos
outra mais maliciosa
oferece a Marianna
um mealheiro
é um marco de correio
em ponto pequeno
Marianna queima-o na braseira
com dinheiro dentro
o dia em que eu nasci moura
e pereça
blasfema Marianna
o dinheiro não traz o marquês de Chamilly
o dinheiro não traz o marquês de Chamilly
sobretudo quando é pouco
pensa Marianna
mas não se deve pensar assim
nada pior do que estar apaixonada
por um gigolo
Marianna pensa em apaixonar-se
por um gigolo
Marianna enrosca-se como uma
mulher de Argel de Delacroix
para pensar no marquês como um gigolo
Marianna enrosca-se mais
mais

*

Algumas cartas de Marianna foram parar
a destinatários diferentes
por cansaço dos carteiros
e Marianna soube disso
ela andava pelos corredores do metro
a abordar senhores
desculpe não foi a si
que eu escrevi
comove-me tanto?
e os senhores apavorados
davam-lhe vinte e cinco escudos
a correr
e ela comprava mais selos
e ela comprava mais selos
não sei se é a si que estou a escrever
não me lembro das suas mãos bem
ontem no metro julguei reconhecê-lo
mas foi mais um terrível engano
mais tarde ou mais cedo todas as cartas
lhe serão devolvidas hermeticamente
fechadas
minha senhora o seu amante
não se encontrou nesta morada


A ILHA DOS AMORES PARA MARIANNA

Gloriantur
et letantur
in melle dulcedinis,
qui conandur,
ut utantur
premio Cupidinis.
simus iussu Cypridis
gloriantes
et letantes
pares esse Paridis!


LOPES, Adília.
in O Marquês de Chamilly (Kabale und Liebe), in Obra, Mariposa Azul, Lisboa, 2000.

12.15.2011

2ª SESSÃO : ADÍLIA LOPES (2)



ARTE POÉTICA

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer


AS ROSAS COM BOLORES

Tenho sempre perto de mim
geralmente na minha mesa de cabeceira
um ramo de rosas
todas as manhãs a primeira coisa
que faço quando acordo
é observar atentamente as rosas
a ver se algum bolor poisou
na pele das rosas
quando isto acontece
é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
mas a pele da rosa
nao esta por baixo do bolor
desapareceu
e preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio
a rosa pode andar pelos seus pés
antes de ela partir
beijo-a na boca
depois ela parte
e desaparece para sempre da minha vida
então eu vou dormir
porque estou muito cansada
as rosas com bolores cansam-me
 

LOPES, Adília.
in Um jogo bastante perigoso, in Obra, Mariposa Azul, Lisboa, 2000.




DOCE AVENTURA EM SAN SABINA

Annette e Dominique chiam
e rangem
no quarto nº5 do motel
a neve reduziu-as a
tostas com Creme Nivea
dorovante temos de beber água de Colónia
e suspiram mais
Vittorio Romano a lamber
a sopa dos beiços espia as duas irmãs
pelo buraco da fechadura
gótica do motel

*

Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras 
para não arranjar complicações


MICROBIOGRAFIAS

Henrique de Navarra
na manhã a seguir à noite em que sonhou
que era despedaçado por feras
mandou abater
todos os leões dos fossos do seu castelo
a tiros de arcabuz

*

Nathaniel Hawthorne
lavava sempre as mãos
antes de abrir as cartas de Sophia Peabody
sua noiva

*

Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke

*

Constant Troyon
pagava a um pintor menor
nunca o mesmo
para lhe pintar
os céus de seus quadros
porque ele só se achava capaz
de pintar carvalhos e vacas

*

Minha mãe era uma pessoa
tão poupada
que as tias de meu pai
diziam a minha mãe
ó Maria Adelaide
esse teu vestido!
já tinha idade para ir à escola


LOPES, Adília.
in A Pão e Água de colónia (seguido de uma autobiografia sumária), in Obra, Mariposa Azul, Lisboa, 2000.

12.08.2011

2ª SESSÃO : ADÍLIA LOPES

Às 15h30 do dia 28 de dezembro, juntamo-nos perto entrada do Centro comercial Via Catarina, na Rua Santa Catarina, para ler Adília Lopes no frenesim das compras de fim de ano. Começamos com "A bela acordada".

1ª SESSÃO : MANUEL BANDEIRA (3)

Para ter acesso às fotografias da 1ª sessão das Leituras FLASH, acontecida no passado dia 5 de dezembro na Estação de comboios São Bento e dedicada a Manuel Bandeira, clique aqui.

1ª SESSÃO : MANUEL BANDEIRA (2)



Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


BANDEIRA, MANUEL.
"Vou-me embora pra Pasárgada", in
Bandeira a Vida Inteira, Alumbramento, Rio de Janeiro, 1986, p. 90.

12.03.2011

1ª SESSÃO : MANUEL BANDEIRA

Às 17h30 do dia 5 de dezembro, juntamo-nos perto da linha 2, na Estação de comboios São Bento, para ler Manuel Bandeira no frenesim das partidas e chegadas. Começamos com "Os Sapos".